Angine de Poitrine
Angine de Poitrine
Quando o rock abandona o ¨temperamento¨ e abraça o absurdo
Há bandas
que procuram um som diferente. Outras procuram também uma aparência diferente.
O Angine de Poitrine parece ter decidido fazer as duas coisas ao mesmo tempo —
e levar ambas às últimas consequências.
Uma banda
que também é uma obra visual
Antes mesmo de ouvir o Angine de Poitrine, é difícil não olhar.
Os músicos
aparecem em cena usando enormes máscaras de papel-machê, roupas com padrões
geométricos de bolinhas pretas e brancas e uma caracterização que parece saída
de algum universo paralelo entre o teatro de vanguarda, o surrealismo e o humor
nonsense.
É possível
lembrar, diante dessas imagens, de artistas associados às vanguardas modernas.
A referência a Joan Miró, por exemplo, pode surgir pela liberdade das formas e
pela aparência quase infantil e onírica de determinadas composições visuais.
Mas a comparação precisa ser feita com cuidado: o Angine de Poitrine não
reproduz a linguagem de Miró. Sua estética parece dialogar de maneira mais
ampla com o Dadaísmo, o surrealismo e o cubismo, transformando o
próprio grupo em uma espécie de performance.
O nome Angine de Poitrine — literalmente “angina do peito” — já dá uma pista de que não estamos diante de uma banda interessada em levar o rock excessivamente a sério.
O que há de estranho nessa música?
À primeira
audição, absolutamente tudo!! o Angine de Poitrine pode parecer simplesmente uma banda tocando algo
extremamente dissonante e difícil de classificar.
Mas existe
uma razão concreta para aquela sensação de que algumas notas parecem estar
“entre” as notas que conhecemos.
Link
Intervalos, Musica ocidental X Musica
oriental Sistema temperado micro tonal , Modalismo X Sistema tonal
Ilustração
de Guitarra ilustração de Koto violino baixo fretless e outros
Em uma
guitarra convencional, a distância entre duas casas corresponde a um semitom.
No instrumento do Angine de Poitrine existem trastes adicionais que permitem
inserir uma nota entre esses dois pontos.
É uma
mudança aparentemente pequena na construção do instrumento, mas enorme para os
ouvidos acostumados à música ocidental.
O resultado
não é simplesmente uma guitarra desafinada.
É uma música
construída deliberadamente com microintervalos — distâncias menores que
o semitom — produzindo uma tensão sonora peculiar, especialmente quando essas
notas são combinadas com instrumentos e referências baseados no sistema
tradicional.
Microtonalidade:
notas que vivem entre as notas
A
microtonalidade não é uma invenção do Angine de Poitrine e tampouco é uma
novidade histórica.
A música
ocidental acabou consolidando o sistema de 12 notas por oitava como uma espécie
de padrão para grande parte de sua tradição moderna. Mas outras culturas
musicais desenvolveram sistemas de afinação diferentes, e mesmo dentro da
tradição ocidental compositores e pesquisadores experimentaram durante séculos
diferentes maneiras de dividir a oitava.
O que torna
o Angine de Poitrine particularmente interessante é a maneira como transforma
essa ideia em linguagem de rock.
A
microtonalidade não aparece apenas como um efeito ocasional. Ela participa da
própria construção das melodias e dos riffs.
O
guitarrista alterna guitarra e baixo microtonais, cria camadas utilizando um
looper e constrói frases angulares que podem utilizar quartos de tom. Sobre
essa base, a bateria de Klek introduz ritmos assimétricos e mudanças de
métrica.
É aí que
entra outra característica fundamental do grupo: o math rock.
Entre o
math rock, o rock progressivo e o mantra
Link para
Ravi Shankar John Mc Laughlin
O math rock
costuma explorar estruturas rítmicas pouco convencionais, mudanças de compasso,
acentos deslocados, padrões repetitivos e uma abordagem quase matemática da
composição.
No Angine de
Poitrine, essas características encontram uma matéria-prima particularmente
estranha: a microtonalidade.
O resultado combina rock experimental, rock progressivo e a matemática como elementos de repetição.
criando uma sensação quase hipnótica.
Link Rock Progressivo Yes Gentle Giant, Premiata.....
Há também
algo de mantra na maneira como determinados motivos são repetidos e
gradualmente transformados. O grupo descreve sua música como uma dinâmica de
adição e subtração de células sonoras: pequenas ideias são acrescentadas,
retiradas, sobrepostas e modificadas ao longo da execução.
Isso
aproxima sua técnica, de certa maneira, de procedimentos encontrados tanto na
música minimalista quanto na música eletrônica baseada em loops; embora o
resultado final seja decididamente mais caótico e físico.
A ironia é
que, apesar de toda essa complexidade, o Angine de Poitrine é apenas uma dupla.
Um
baterista.
Um
guitarrista-baixista.
O absurdo
como linguagem
Talvez seja
justamente essa combinação que explique o fascínio provocado pelo grupo.
A música é
tecnicamente complexa, mas a apresentação se recusa a parecer acadêmica. Os
músicos escondem o rosto atrás de máscaras. Vestem-se como personagens de uma
história que não existe. Criam nomes fictícios. Fazem humor com a própria
seriedade do universo do rock.
Existe,
portanto, uma espécie de contradição deliberada.
A música
é rigorosa; a aparência é absurda.
O
instrumento é tecnicamente sofisticado em sua proposta microtonal; sua
aparência, porém, parece quase artesanal. A composição utiliza estruturas
matematicamente complexas; a apresentação parece saída de uma esquete
surrealista.
Link
Surrealismo, Salvador dali
É justamente
nessa contradição que o projeto encontra sua identidade.
Não é
apenas uma banda de rock
Talvez seja
mais interessante pensar no Angine de Poitrine não como uma banda que pertence
exclusivamente a um gênero, mas como um projeto artístico multidisciplinar
que utiliza o rock como matéria-prima.
O Dadaísmo
aparece na rejeição do bom senso e da solenidade artística.
O
surrealismo aparece na criação de personagens, máscaras e imagens que parecem
pertencer a um universo onírico.
O cubismo
pode ser percebido, mais como referência conceitual do que como reprodução
visual, na fragmentação e na sobreposição de elementos.
Cubismo,
Portinari
O “mantra”
está na repetição e transformação de células musicais.
O “Pythago”
aponta, para a dimensão matemática e
estrutural da música.
E o rock
fornece a energia física que mantém tudo isso unido.
É uma
espécie de laboratório em que ritmo, afinação, imagem, humor e performance
são tratados como partes de uma mesma obra.
O
estranho que se tornou familiar
O mais
curioso no fenômeno Angine de Poitrine é que uma proposta que poderia parecer
destinada a um pequeno circuito experimental acabou alcançando um público muito
mais amplo.
A
apresentação da dupla para a KEXP, em particular, ajudou a transformar o grupo
em um fenômeno viral e levou a guitarra microtonal, o math rock e toda aquela
estética aparentemente inexplicável para uma audiência que provavelmente jamais
procuraria por esses termos.
E talvez
esteja aí a maior contribuição involuntária do grupo.
O Angine de Poitrine não inventou a microtonalidade, o math rock, o Dadaísmo ou a música experimental. Mas conseguiu colocar todas essas coisas em uma embalagem tão estranha que se tornou impossível ignorá-la.
Em um
cenário musical cada vez mais familiarizado com sons digitalmente perfeitos e
estruturas previsíveis, dois músicos mascarados de Québec aparecem com uma
guitarra cheia de trastes aparentemente impossíveis e começam a tocar música
baseada em quartos de tom e compassos assimétricos.
Pode parecer
absurdo.
E talvez
esse seja exatamente o ponto.
Angine de
Poitrine transformou o estranhamento em linguagem — e descobriu que há um
público enorme disposto a ouvi-lo.









Estranho a primeira "ouvida" , depois torna-se agradável de escutar e ver
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