Angine de Poitrine

 

Angine de Poitrine


Quando o rock abandona o ¨temperamento¨ e abraça o absurdo

Há bandas que procuram um som diferente. Outras procuram também uma aparência diferente. O Angine de Poitrine parece ter decidido fazer as duas coisas ao mesmo tempo — e levar ambas às últimas consequências.

Vindos de Saguenay, no Québec, Canadá, os dois músicos que formam o projeto se apresentam sob os pseudônimos Khn de Poitrine, guitarrista e baixista, e Klek de Poitrine, baterista. A dupla mantém deliberadamente o anonimato e construiu em torno disso uma espécie de mitologia própria. O projeto surgiu em 2019, inicialmente quase como uma brincadeira, mas acabou se transformando em uma proposta artística que combina rock experimental, humor absurdo, performance visual e uma abordagem pouco convencional da linguagem musical.

                              Uma banda que também é uma obra visual


       Antes mesmo de ouvir o Angine de Poitrine, é difícil não olhar.

Os músicos aparecem em cena usando enormes máscaras de papel-machê, roupas com padrões geométricos de bolinhas pretas e brancas e uma caracterização que parece saída de algum universo paralelo entre o teatro de vanguarda, o surrealismo e o humor nonsense.

É possível lembrar, diante dessas imagens, de artistas associados às vanguardas modernas. A referência a Joan Miró, por exemplo, pode surgir pela liberdade das formas e pela aparência quase infantil e onírica de determinadas composições visuais. Mas a comparação precisa ser feita com cuidado: o Angine de Poitrine não reproduz a linguagem de Miró. Sua estética parece dialogar de maneira mais ampla com o Dadaísmo, o surrealismo e o cubismo, transformando o próprio grupo em uma espécie de performance.

O nome Angine de Poitrine — literalmente “angina do peito” — já dá uma pista de que não estamos diante de uma banda interessada em levar o rock excessivamente a sério. 




                                         O que há de estranho nessa música?

À primeira audição, absolutamente tudo!! o Angine de Poitrine pode parecer simplesmente uma banda tocando algo extremamente dissonante e difícil de classificar.

Mas existe uma razão concreta para aquela sensação de que algumas notas parecem estar “entre” as notas que conhecemos.


O instrumento de Khn de Poitrine é uma guitarra e baixo de dois braços construída especialmente para o projeto. Em vez das 12 notas por oitava normalmente encontradas na música ocidental baseada no temperamento igual, o instrumento utiliza 24 divisões da oitava, permitindo a execução de intervalos de um quarto de tom.

 

Link Intervalos,  Musica ocidental X Musica oriental Sistema temperado micro tonal , Modalismo X Sistema tonal

Ilustração de Guitarra ilustração de Koto violino baixo fretless e outros

Em uma guitarra convencional, a distância entre duas casas corresponde a um semitom. No instrumento do Angine de Poitrine existem trastes adicionais que permitem inserir uma nota entre esses dois pontos.

É uma mudança aparentemente pequena na construção do instrumento, mas enorme para os ouvidos acostumados à música ocidental.

O resultado não é simplesmente uma guitarra desafinada.

É uma música construída deliberadamente com microintervalos — distâncias menores que o semitom — produzindo uma tensão sonora peculiar, especialmente quando essas notas são combinadas com instrumentos e referências baseados no sistema tradicional.

Microtonalidade: notas que vivem entre as notas





A microtonalidade não é uma invenção do Angine de Poitrine e tampouco é uma novidade histórica.

A música ocidental acabou consolidando o sistema de 12 notas por oitava como uma espécie de padrão para grande parte de sua tradição moderna. Mas outras culturas musicais desenvolveram sistemas de afinação diferentes, e mesmo dentro da tradição ocidental compositores e pesquisadores experimentaram durante séculos diferentes maneiras de dividir a oitava.


O que torna o Angine de Poitrine particularmente interessante é a maneira como transforma essa ideia em linguagem de rock.

A microtonalidade não aparece apenas como um efeito ocasional. Ela participa da própria construção das melodias e dos riffs.

O guitarrista alterna guitarra e baixo microtonais, cria camadas utilizando um looper e constrói frases angulares que podem utilizar quartos de tom. Sobre essa base, a bateria de Klek introduz ritmos assimétricos e mudanças de métrica.

É aí que entra outra característica fundamental do grupo: o math rock.

Entre o math rock, o rock progressivo e o mantra

Link para Ravi Shankar John Mc Laughlin

O math rock costuma explorar estruturas rítmicas pouco convencionais, mudanças de compasso, acentos deslocados, padrões repetitivos e uma abordagem quase matemática da composição.

No Angine de Poitrine, essas características encontram uma matéria-prima particularmente estranha: a microtonalidade.

O resultado combina rock experimental, rock progressivo e a matemática como elementos de repetição.

criando uma sensação quase hipnótica.

Link Rock Progressivo Yes Gentle Giant, Premiata.....

Há também algo de mantra na maneira como determinados motivos são repetidos e gradualmente transformados. O grupo descreve sua música como uma dinâmica de adição e subtração de células sonoras: pequenas ideias são acrescentadas, retiradas, sobrepostas e modificadas ao longo da execução.

Isso aproxima sua técnica, de certa maneira, de procedimentos encontrados tanto na música minimalista quanto na música eletrônica baseada em loops; embora o resultado final seja decididamente mais caótico e físico.

A ironia é que, apesar de toda essa complexidade, o Angine de Poitrine é apenas uma dupla.

Um baterista.

Um guitarrista-baixista.


E um sistema de loops.



O absurdo como linguagem


Talvez seja justamente essa combinação que explique o fascínio provocado pelo grupo.

A música é tecnicamente complexa, mas a apresentação se recusa a parecer acadêmica. Os músicos escondem o rosto atrás de máscaras. Vestem-se como personagens de uma história que não existe. Criam nomes fictícios. Fazem humor com a própria seriedade do universo do rock.

Existe, portanto, uma espécie de contradição deliberada.

A música é rigorosa; a aparência é absurda.

O instrumento é tecnicamente sofisticado em sua proposta microtonal; sua aparência, porém, parece quase artesanal. A composição utiliza estruturas matematicamente complexas; a apresentação parece saída de uma esquete surrealista.

 

Link Surrealismo, Salvador dali

 


É justamente nessa contradição que o projeto encontra sua identidade.

Não é apenas uma banda de rock

Talvez seja mais interessante pensar no Angine de Poitrine não como uma banda que pertence exclusivamente a um gênero, mas como um projeto artístico multidisciplinar que utiliza o rock como matéria-prima.

O Dadaísmo aparece na rejeição do bom senso e da solenidade artística.

O surrealismo aparece na criação de personagens, máscaras e imagens que parecem pertencer a um universo onírico.

O cubismo pode ser percebido, mais como referência conceitual do que como reprodução visual, na fragmentação e na sobreposição de elementos.

Cubismo, Portinari

O “mantra” está na repetição e transformação de células musicais.

O “Pythago” aponta,  para a dimensão matemática e estrutural da música.

E o rock fornece a energia física que mantém tudo isso unido.

É uma espécie de laboratório em que ritmo, afinação, imagem, humor e performance são tratados como partes de uma mesma obra.



O estranho que se tornou familiar

O mais curioso no fenômeno Angine de Poitrine é que uma proposta que poderia parecer destinada a um pequeno circuito experimental acabou alcançando um público muito mais amplo.

A apresentação da dupla para a KEXP, em particular, ajudou a transformar o grupo em um fenômeno viral e levou a guitarra microtonal, o math rock e toda aquela estética aparentemente inexplicável para uma audiência que provavelmente jamais procuraria por esses termos.

E talvez esteja aí a maior contribuição involuntária do grupo.

O Angine de Poitrine não inventou a microtonalidade, o math rock, o Dadaísmo ou a música experimental. Mas conseguiu colocar todas essas coisas em uma embalagem tão estranha que se tornou impossível ignorá-la.



Em um cenário musical cada vez mais familiarizado com sons digitalmente perfeitos e estruturas previsíveis, dois músicos mascarados de Québec aparecem com uma guitarra cheia de trastes aparentemente impossíveis e começam a tocar música baseada em quartos de tom e compassos assimétricos.

Pode parecer absurdo.

E talvez esse seja exatamente o ponto.

Angine de Poitrine transformou o estranhamento em linguagem — e descobriu que há um público enorme disposto a ouvi-lo.

 

 






Comentários

  1. Estranho a primeira "ouvida" , depois torna-se agradável de escutar e ver

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