Jimi Hendrix: o gênio que continua sendo descoberto


Lançamento do ¨novo¨ CD do Hendrix 


Poucos artistas desapareceram tão cedo e continuam tão presentes.

Mais de meio século depois de sua morte, Jimi Hendrix ainda aparece nas prateleiras das lojas de discos com uma frequência surpreendente. Novos CDs, LPs, edições de luxo, caixas, gravações ao vivo e registros de estúdio continuam chegando ao público. E o mais extraordinário é que muitos desses lançamentos não parecem simples tentativas de prolongar comercialmente uma carreira encerrada em 1970.

Ao contrário: quando o trabalho de preservação é bem realizado, cada nova edição pode revelar uma faceta diferente de um músico cuja imaginação parecia estar sempre alguns passos à frente de seu próprio tempo.

O próximo capítulo dessa história chega em 16 de outubro de 2026, com Magic Boy: The Jimi Hendrix Experience Live At Berkeley (First Show), lançamento da Experience Hendrix/Legacy Recordings. Trata-se da primeira edição oficial, em sua ordem original, do primeiro dos dois concertos realizados por Hendrix em Berkeley, na Califórnia, em 30 de maio de 1970.


Um arquivo que ainda parece inesgotável

Hendrix deixou uma quantidade considerável de gravações que não haviam sido transformadas em álbuns durante sua vida. Isso criou, depois de sua morte, um dos mais complexos arquivos da história do rock.

Durante décadas, diferentes gravadoras lançaram compilações, sobras de estúdio e gravações ao vivo com critérios variados. A partir dos anos 1990, entretanto, a família de Hendrix, por meio da Experience Hendrix, passou a supervisionar de maneira mais sistemática a preservação e apresentação desse material.

Hendrix e Kramer no estúdio

Um dos nomes fundamentais nesse processo é Eddie Kramer, engenheiro de gravação que trabalhou com Hendrix durante sua vida e que voltou aos tapes originais para diversos projetos do catálogo.

A diferença pode ser enorme.

Em vez de simplesmente pegar uma fita antiga e aumentar seu volume, uma nova mixagem pode permitir recuperar melhor a separação entre instrumentos, detalhes da bateria de Mitch Mitchell, nuances do baixo de Billy Cox e, sobretudo, a extraordinária variedade de timbres produzidos pela guitarra de Hendrix.


É por isso que determinadas gravações, mesmo conhecidas há décadas, podem soar quase novas.

O catálogo oficial: três álbuns e uma revolução

A carreira de Hendrix foi curta, mas sua produção essencial é extraordinariamente concentrada.

Com a Jimi Hendrix Experience, vieram:

Are You Experienced (1967) Axis: Bold as Love (1967) Electric Ladyland (1968)


A esses álbuns deve-se acrescentar Band of Gypsys (1970), gravado ao vivo no Fillmore East com Billy Cox e Buddy Miles, que representa uma transformação importante na direção musical de Hendrix.




São apenas quatro álbuns fundamentais lançados enquanto ele ainda estava vivo, mas eles contêm uma quantidade de invenção que muitos artistas não alcançam em décadas de carreira.

Are You Experienced apresentou ao mundo uma nova concepção da guitarra elétrica. Axis: Bold as Love revelou um Hendrix ainda mais interessado em harmonia, timbres e construção de canções. Electric Ladyland ampliou radicalmente o universo do estúdio e incorporou blues, soul, jazz, psicodelia e experimentação sonora.


E Band of Gypsys apontou para outra direção: mais groove, funk, improvisação e comentário social. O que impressiona retrospectivamente é perceber que Hendrix não estava repetindo uma fórmula. Ele estava mudando constantemente.


A segunda vida das gravações

Depois de sua morte, em setembro de 1970, começaram os lançamentos póstumos.

Entre os títulos mais importantes estão The Cry of Love (1971), Rainbow Bridge (1971), War Heroes (1972), Hendrix in the West (1972) e, posteriormente, projetos como South Saturn Delta, First Rays of the New Rising Sun, Valleys of Neptune, People, Hell and Angels e Both Sides of the Sky.



A trilogia formada por Valleys of Neptune (2010), People, Hell and Angels (2013) e Both Sides of the Sky (2018) foi particularmente importante porque procurou apresentar gravações de estúdio ainda inéditas ou pouco conhecidas. Both Sides of the Sky, por exemplo, trouxe 13 gravações realizadas entre 1968 e 1970, dez delas inéditas comercialmente naquele momento.

Não se trata, portanto, apenas de “sobras”.

O arquivo permite acompanhar Hendrix trabalhando, experimentando, mudando arranjos, testando guitarras, procurando timbres e desenvolvendo músicas que às vezes ainda estavam muito distantes da forma definitiva.

Para quem se interessa pela história da guitarra, isso é particularmente fascinante: podemos ouvir não apenas o resultado, mas o processo criativo.




As grandes caixas

Entre os lançamentos mais importantes está Songs for Groovy Children: The Fillmore East Concerts, lançado em 2019.

A caixa reúne os quatro concertos realizados pelo Band of Gypsys no Fillmore East, em Nova York, na virada de 1969 para 1970: dois em 31 de dezembro e dois em 1º de janeiro.



São 43 performances distribuídas em cinco CDs, apresentadas na sequência original dos concertos. O projeto inclui mais de duas dezenas de faixas que nunca haviam sido lançadas comercialmente ou que receberam novas mixagens e apresentações. O material foi produzido por Janie Hendrix, Eddie Kramer e John McDermott e masterizado por Bernie Grundman.

É um documento extraordinário porque permite ouvir a evolução de Hendrix dentro de uma mesma noite e perceber como ele tratava o palco como um laboratório.

Ali está Machine Gun, talvez uma das demonstrações mais radicais de sua linguagem instrumental, ao lado de Power of Soul, Changes, Message to Love, Earth Blues, Who Knows e outras composições que apontavam para uma fusão cada vez mais profunda entre rock, blues, soul e funk.




Outro lançamento importante é Live in Maui, de 2020, que recuperou as duas apresentações realizadas no Havaí em 30 de julho de 1970, poucas semanas antes da morte de Hendrix. O projeto incluiu as gravações restauradas e remixadas por Eddie Kramer, além do documentário sobre a complicada história da participação do grupo no filme Rainbow Bridge.




E agora chega Berkeley

É nesse contexto que aparece Magic Boy.

Em 30 de maio de 1970, a Jimi Hendrix Experience — Hendrix, Billy Cox e Mitch Mitchell — apresentou dois shows no Berkeley Community Theatre.

A procura pelos ingressos foi muito superior à capacidade do teatro, que tinha cerca de 6.600 lugares. Segundo o arquivo oficial de Hendrix, milhares de pessoas ficaram do lado de fora; houve tumulto, pessoas tentando entrar pelas portas e até pelo teto. A segurança de Bill Graham enfrentou uma situação excepcionalmente difícil.

O momento histórico também é importante.

Hendrix já era uma estrela internacional havia quase três anos. Mas sua atenção começava a se deslocar para outro lugar: ele queria trabalhar no Electric Lady Studios, o complexo de gravação que estava sendo construído em Greenwich Village, Nova York.



Por isso, em 1970, Hendrix passou a limitar suas apresentações principalmente aos fins de semana.

Berkeley aconteceu nesse período de transição.

E o que ouvimos no palco é justamente um músico que parecia estar entre dois mundos: de um lado, os grandes sucessos que o público esperava; de outro, músicas novas e uma linguagem que ainda estava sendo desenvolvida.



Magic Boy: as 11 músicas

O novo CD reúne as 11 performances do primeiro show:

  1. Fire
  2. Johnny B. Goode
  3. Hear My Train A Comin'
  4. Machine Gun
  5. Freedom
  6. Red House
  7. Message To Love
  8. Ezy Ryder
  9. The Star-Spangled Banner
  10. Purple Haze
  11. Voodoo Child (Slight Return)


A sequência é particularmente interessante porque mostra a amplitude do repertório de Hendrix naquele momento. Há sucessos da Experience, blues tradicional, material associado ao Band of Gypsys, novas composições e, finalmente, alguns dos grandes símbolos de sua carreira.

Duas músicas chamam atenção por representarem o futuro que Hendrix estava construindo: “Freedom” e “Ezy Ryder”.


Elas ainda estavam em desenvolvimento quando foram apresentadas em Berkeley. Ouvi-las no contexto do concerto permite perceber Hendrix não como um músico repetindo um repertório acabado, mas como alguém experimentando material que ainda estava encontrando sua forma definitiva.

Já “Machine Gun” e “Message To Love” trazem para o show a experiência recente do Band of Gypsys.

E então há “Hear My Train A Comin'”, “Red House” e “Voodoo Child”, nas quais o blues continua sendo a espinha dorsal de sua linguagem.

É justamente essa combinação que torna Berkeley tão importante.


Uma guitarra que parecia ter possibilidades infinitas



Hendrix não revolucionou a guitarra simplesmente porque tocava mais rápido ou porque utilizava mais efeitos.

Sua grande revolução foi compreender que a guitarra elétrica podia ser simultaneamente instrumento harmônico, melódico, rítmico, percussivo e produtor de ruído.

Ele explorou:

  • feedback;
  • fuzz;
  • wah-wah;
  • controle de volume;
  • alavanca;
  • distorção;
  • oitavas;
  • acordes com extensões;
  • double stops;
  • bends e vibrato;
  • efeitos de estúdio;
  • exploração do espaço entre nota e ruído.

Mas talvez o elemento mais importante tenha sido a relação entre mão direita, mão esquerda, amplificador e corpo.




Hendrix não simplesmente tocava através de um amplificador.

Ele fazia o amplificador participar da execução.

O feedback podia ser uma nota sustentada, um ruído, uma textura ou uma resposta física ao movimento do músico no palco.

É uma das razões pelas quais tantos guitarristas posteriores podem utilizar os mesmos equipamentos e ainda assim não produzir o mesmo resultado.

De Hendrix a Satriani, Trower, Vai, Johnson e Slash

A influência de Hendrix sobre gerações posteriores de guitarristas é enorme, mas ela não ocorreu da mesma maneira para todos.

Joe Satriani

No caso de Joe Satriani, a influência é quase fundadora.

Satriani conta que Hendrix foi uma das razões decisivas para ele escolher a guitarra. Quando criança, ficou fascinado por fotografias, discos e pôsteres de Hendrix e descreveu o impacto de ouvir “Purple Haze” como uma experiência que mudou sua vida.





Musicalmente, a influência pode ser percebida sobretudo na importância que Satriani dá à melodia, expressão, bends, vibrato, dinâmica e à guitarra como voz.

Mas existe também uma influência menos evidente: Hendrix mostrou a Satriani que o guitarrista podia ser compositor, arranjador e criador de paisagens sonoras — e não simplesmente alguém que executa solos.

Satriani posteriormente transformaria isso em uma linguagem instrumental própria, muito mais ligada ao rock instrumental e à tecnologia das décadas de 1980 e 1990.

Robin Trower




Poucos casos são tão evidentes quanto o de Robin Trower.

Trower adotou a Stratocaster, amplificadores Marshall e efeitos como fuzz, wah-wah e Uni-Vibe, aproximando deliberadamente seu equipamento da combinação utilizada por Hendrix. Mas ele próprio rejeita a ideia de que sua música seja mera imitação.

Trower reconhece que seu primeiro álbum solo foi profundamente influenciado por Hendrix, enquanto afirma que posteriormente desenvolveu uma linguagem própria.

Em Bridge of Sighs, por exemplo, é possível ouvir a herança de Hendrix no peso da nota, no uso do vibrato, na espacialidade, na distorção e na atmosfera psicodélica. Mas Trower acrescentou uma sensibilidade própria, mais pesada e introspectiva.

     Steve Vai



Em Steve Vai, a influência é menos uma questão de copiar timbres e mais uma questão de atitude artística.

Vai cresceu ouvindo Hendrix e posteriormente estudou guitarra com Joe Satriani. Ele descreve Hendrix como uma influência fundamental e destaca especialmente sua capacidade de criar algo que não parecia ter precedente.

Em entrevista mais recente, Vai destacou particularmente Axis: Bold as Love e a maneira como Hendrix utilizava voicings, condução de vozes e acordes como elementos melódicos.



Isso é interessante porque mostra uma influência que muitas vezes passa despercebida: Hendrix não era apenas o homem dos solos e do feedback.

Era também um extraordinário guitarrista de acordes.

Eric Johnson



Em Eric Johnson, Hendrix aparece principalmente na concepção de timbre e na liberdade musical.

Johnson chama atenção para o modo como Hendrix combinava blues, rock, jazz e psicodelia e, sobretudo, para a maneira como utilizava fuzz e feedback para transformar a linguagem tradicional da guitarra.

Mas Johnson também percebeu algo mais profundo: cada gravação de Hendrix parecia apresentar uma nova solução de timbre, harmonia ou produção.

Essa característica é muito perceptível no próprio trabalho de Johnson, que trata o som como parte inseparável da composição.

Slash



No caso de Slash, a influência de Hendrix aparece de maneira mais indireta.

Slash cresceu ouvindo Hendrix e afirma que Axis: Bold as Love é seu álbum favorito de Jimi, destacando particularmente “Little Wing”, “Voodoo Chile” e a versão ao vivo de “Machine Gun”. Ele também associa sua admiração a uma guitarra de Hendrix que considerava fluida, espontânea e extremamente expressiva.

O som de Slash, porém, está muito mais ligado à tradição Gibson/Marshall, ao blues-rock britânico e a guitarristas como Jimmy Page, Jeff Beck e outros.

A influência de Hendrix aparece sobretudo na liberdade do fraseado, no caráter visceral do solo e na importância do timbre como parte da personalidade do guitarrista.

Uma influência que atravessa gerações

Poderíamos continuar a lista com nomes como Eric Gales, John Frusciante, Stevie Ray Vaughan, Gary Moore, Lenny Kravitz e muitos outros.

O interessante é que cada um absorveu uma parte diferente do legado.

Alguns absorveram o blues.

Outros, o feedback.

Outros, a psicodelia.

Outros, a utilização da guitarra como instrumento rítmico e harmônico.

Outros ainda absorveram a ideia fundamental de Hendrix: não aceitar que a guitarra tivesse uma maneira única de ser tocada.

O verdadeiro legado



Talvez seja justamente por isso que Hendrix continue atual.

Não é apenas porque suas gravações envelheceram bem.

É porque elas continuam apresentando perguntas.

Como ele conseguiu aquele timbre?

Como construiu aquele acorde?

De onde veio aquela frase?

Como produziu aquele feedback?

Como conseguiu tocar guitarra e cantar simultaneamente daquela maneira?

Como pensava aqueles arranjos?

E, sobretudo, o que ele teria feito se tivesse vivido mais vinte ou trinta anos?

Não temos resposta para essa última pergunta.

Temos, entretanto, algo talvez mais interessante: as gravações que ficaram.

Cada nova edição bem realizada permite voltar a elas com outros ouvidos.

Magic Boy representa exatamente isso. O primeiro show de Berkeley já era conhecido parcialmente por outras fontes: “Hear My Train A Comin'” apareceu em Rainbow Bridge (1971), “Johnny B. Goode” em Hendrix in the West (1972), enquanto trechos de “Purple Haze” e “The Star-Spangled Banner” foram utilizados no filme Jimi Plays Berkeley, de 1971. O que muda agora é que o concerto pode finalmente ser ouvido inteiro, em sua sequência original, como o público o experimentou naquela noite.

E há um detalhe especialmente significativo: o material foi novamente remixado por Eddie Kramer a partir das fitas multitrack originais e masterizado por Bernie Grundman.

Mais de 56 anos depois, o primeiro show de Berkeley retorna não como uma relíquia, mas como uma nova experiência de escuta.

É talvez essa a maior demonstração da força de Hendrix.



          Sua música continua sendo descoberta.


 





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